Escolha uma Página

A ideia era pintar para relaxar. Só isso. Sabia que minhas questões incômodas não parariam de dar cabeçadas e, tampouco, encontrariam uma saída iluminada em um fim de túnel. Todos os meus desenhos de infância foram cotocos, tortos, indecifráveis ou incompletos, boneca de vestido de triângulo e cabelos de linha reta eram minha especialidade. Até achava alguns graciosos, mas ao bisbilhotar com o canto dos olhos o caderno alheio dos coleguinhas, debruçava-me sobre o meu desenho e não deixava mais ninguém ver as imagens coxas que eu havia criado. A professora via, claro, e tentava me encorajar com uma expressão estranha no rosto, a qual mais tarde aprendi o nome, sorriso amarelo.

Guardei essa memória até hoje, mas resolvi cutucar o trauma com vara curta. Caí de paraquedas no canal de vídeo de um professor de pintura, que garantia que qualquer pessoa poderia pintar o quadro de sua tela. Fiquei absorta e fascinada com o “qualquer”. No dia seguinte, parti para uma papelaria e voltei com uma tela 40x50cm, algumas tintas a óleo, dois pincéis chatos, um redondo e sei lá mais o quê. Só obedeci à lista do milagroso professor de arte do youtube. Foi uma sensação incrível comprar essas coisas, aproveitei para comprar também uma caixinha de madeira para guardar tudo! Amo caixas… Já comecei a me sentir artista nessa etapa e, também confiante, esperançosa, como uma menina com a sua primeira bicicleta e aquela vontade homérica de sair pedalando pelo mundo, mesmo com o guidão em polvorosa, ziguezagueando as ruas, sem equilíbrio algum.

(O segredo para copiar um desenho de uma folha pequena para uma tela grande é fazer uma grande planilha em branco)

Assisti ao segundo vídeo em posição de aluna dedicada, com o cavalete na minha frente e o celular do lado. Pausei a aula de minuto em minuto porque misturar aquelas cores para formar outras foi muito assustador para mim. Comecei a achar que era feitiçaria. Era só dar umas batidinhas com uma espátula na cor azul ultramar junto com a sombra queimada e, por pura bruxaria aparecia um preto cromático. Isso não foi nada simples para eu assimilar. De repente, eu tinha poderes. Sei que fazer bolo também tem o seu valor e magia, mas misturar tintas mexeu muito comigo. Para o bem e para o mal. Meu coração acelerou. Puxa, o professor disse que fez um verde claro, mas na aula gravada não era o que eu via, “e agora?”. Pensei… “Calma, essa aula é para relaxar. Vou ficar tranquila”, só que não…

A primeira pincelada eu jamais esquecerei. Ansiedade e medo de errar na quantidade de tinta no pincel, no solvente, no óleo de linhaça. “Segui as medidas direito? Pincelo com força ou sem força? Para cima ou para baixo?”. Enquanto minha cabeça girava com todas essas dúvidas, a mão seguia a sua função e o pincel agiu na tela. Aos poucos, um céu nublado foi aparecendo, para o meu espanto. Minha autoconfiança foi brotando bem na minha frente. Nesse momento, percebi que minha mão esquerda estava com todos os dedos esticados e duros. Como sou rígida comigo mesma! Puxa, não precisava ficar assim, afinal era minha primeira pintura, deveria ser algo prazeroso, gostoso, leve e alegre. Descobri minha alta tensão em um momento de lazer. Fiquei desconcertada comigo mesma e senti certa compaixão. Nesse dia, à noite, logo antes de dormir, fiz o meu checklist de sempre, mas acrescentei o item “me aceitar mesmo quando erro”, logo abaixo de “passear com a Teka”. Fiquei satisfeita com a anotação.

(A montanha saiu especialmente azul, mas por que não?)

O vídeo da aula 3 ensinava especificamente como pintar árvores no sol e na sombra. Ah, professor! Vou deixar um comentário no canal do paciente mestre, que me permitiu congelá-lo tantas vezes que o tempo de aula simplesmente duplicou, eu acho. Também pudera, eu me senti agredida ao espalhar aquele preto cromático nos troncos das minhas árvores, tão arduamente transplantadas na minha tela por um lápis super trêmulo e delicado. Coitado do lápis, do meu desenho na tela e da minha vida miserável! Tanto suor e trabalho para depois poluir minha tênue paisagem com aquela tinta preta, que parecia mais um capricho de um bebê desdentado, que lambuza o papel com qualquer giz de cera na cadeira alta de um restaurante cheio! Gente! Quase chorei.

Enquanto me consumia com o desgosto de ver meu sonho se dissolver na minha tela, ouvi a voz do professor dizer, “Confie no processo! É assim mesmo, parece que não vai dar certo, mas vai!”. Quê? Meu Deus, minha casinha com árvores e montanhas ao fundo não vai sair de dentro dessa escuridão! Eu tive a opção de desistir do “processo”, bastaria apenas limpar os potes, lavar os pinceis e retomar minha vida sem essa experiência. Pensei em começar a recolher os materiais, mas uma sensação horrível de cansaço e peso me tijolou. Bem, continuar só por mais alguns minutos não iria me derrubar porque eu já estava no chão. Tímida e mecanicamente, apenas segui as instruções do professor e, algo surpreendente foi acontecendo. A tal mágica de novo. As novas pinceladas foram dando vida de volta às árvores, e o preto foi ficando interessante no meio delas. Era a sombra. Comecei a observá-la com certo gosto porque ela faz parte da natureza, do dia, da noite e de nós. Lembrei o conceito do Jung sobre a importância de abraçarmos nossas sombras, nossos piores defeitos que queremos esconder…

Mais uma vez fui me acalmando e me permitindo ver os “erros” de minha pintura com amor. Meu espírito se acalmou, respirei fundo e olhei para o azul da minha montanha na tela e… a vida respondeu com um debochado cupim, preso na tinta fresca da minha linda e exuberante montanha azul. Vencida, eu sorri para aquela minha “sombra”, aquele cupinzinho até traria um novo conceito para a minha pintura, mais natural, dual! Pensei em deixá-lo lá, mas ainda não ando de mãos dadas com os meus defeitos, dei um peteleco nele. Sua marca estatelou o azul irreal da minha montanha, minha mais nova cicatriz. A pintura ainda não está pronta, não sei como vai ficar, mas preciso confiar no processo! Você confia?

(Resta pintar o lago e o reflexo… humm, fichinha para mim…)